No meio do show, ele gritou “vou casar com aquela moça ali”.

Elma tinha 17 anos quando viu Denis pela primeira vez e ela nunca mais o esqueceu. Os jovens paulistanos dos anos 60 iam muito para Matinês. Elma era uma delas. Era o momento que ela esquecia os problemas da vida, colocava a saia plissada que tanto amava, combinado a um topete que, segundo a própria, era a moda da época. Hoje considera que, se saísse assim na rua, iriam achar que ela é maluca.

As noites eram embaladas pela banda Ritmo Copacabana, em um clube perto de sua casa. Todos os jovens da região se reuniam para ver os músicos tocarem e desejavam ser iguais a eles. As moças, por sua vez, queriam que os integrantes a chamassem para o camarim. Todas elas, menos Elma.

Ela tinha uma regra muito importante de não se envolver com nenhum dos garotos da banda e a levava muito a sério. O motivo era simples: ela conhecia a reputação dos rapazes e não queria ser mais uma a chorar por eles.

Denis, por outro lado, sempre via a garota dançando na pista, mesmo por trás de sua bateria. Entre uma batucada e outra, seus olhos sempre voltavam para a saia esvoaçante que rodopiava no meio da pista. Ele já estava apaixonado, mas não sabia como tomar a iniciativa em cima daquela garota tão reclusa.

Em um show, durante o intervalo, todos foram descansar no camarim, menos ele, que ajeitou sua gravata, passou o pente no cabelo uma última vez, e partiu rumo à pista de dança. Rumo à sua amada. Mas, para sua surpresa, a indiferença era evidente no rosto da moça. Um primeiro contato desastroso, mas não o suficiente para vencer Denis.

Elma, em sua casa, também refletia sobre os eventos da noite passada. Mas o futuro lhe guardava uma ocasião maior ainda.

O sábado seguinte chegou e, antes da banda começar a se aquecer, todos os membros já sabiam o que aconteceria. Assim que os primeiros acordes começaram, o vocalista chamou a atenção de todos.

“Olá Brotos, somos a Ritmo Copacana.”. A plateia gritava. O vocalista deu um meio sorriso, enquanto esperava todos se acalmarem para continuar falando.
“Antes de eu começar a tocar, o nosso baterista, o Churchill, tem um recado para alguém muito especial”.

Então Denis levantou de seu banco. Apesar de estar em um grupo musical, odiava a atenção que às vezes tinha.

Elma estava na plateia, usando um vestido rosa que a mãe havia lhe feito. Ela nunca o tinha usado antes, mas algo dizia que aquela noite valeria a pena.

“Me desculpem todos. Logo voltaremos para o show que vocês estão esperando”. Seus olhos vagaram a multidão à procura dela. Precisava encontrá-la para continuar seu plano. Quando os dois se viram, ele sorriu. Ela percebeu que amava aquele sorriso, e amava mais ainda que aquele sorriso era para ela. Nesse momento, esquecera completamente as regras.

“Vocês estão vendo aquela garota de rosa?”, todos os olhares se voltaram a ela. “Senhoras e senhores, pode soar estranho, mas eu vou me casar com ela. Eu não sei quando, nem como, mas eu vou”.

Antes que ela pudesse reagir, ele desceu do palco e andou em sua direção. A multidão foi abrindo caminho e, por um momento, parecia que o mundo tinha parado. Quando os dois se encontraram, eles sabiam que aquilo era amor.

“Então quer dizer que a gente vai casar? Acho que a noiva, que, no caso, sou eu, deveria saber disso antes com certa antecedência.”
“Somos jovens. Temos uma vida inteira para nos casarmos. Que tal começar com um encontro?”
E ela aceitou, pensando “eu quero a regra dessa vez”.

E ele voltou para o palco.
Os dois viraram melhores amigos. Depois de três anos, se casaram no mesmo lugar em que se conheceram.
Ele se foi há pouco, e deixou a garota com saia esvoaçante. Mas ela não está sozinha: ela tem as memórias que os dois fizeram, 3 filhos, 7 netos e muito amor.

Em homenagem ao casal: Elma e Denis Churchill.